14 anos após chacina, Dudu comemora 21 com festa

Pode ser funk, sertanejo, MPB ou dance music. Não importa o ritmo, só o que conta para Luís Henrique Faccion – o Dudu -, é dançar, dançar e dançar. Conhecido por sua luta pela vida desde que resistiu ao ataque sangrento que matou cinco pessoas de sua família, em Batatais, há 14 anos, o jovem mostra que tempos de dores agudas, angústias e tristezas ficaram para trás.

Há dois anos sem passar por procedimentos cirúrgicos, o momento é de comemorar as superações e brindar as conquistas. No último dia 6, Dudu completou 21 anos e, na semana passada, ganhou uma festa à altura de sua sede de viver.

O tema escolhido pelos tios, Márcia Helena Botelho, 48, e Roberto da Silva, 56, que o adotaram como filho após a tragédia, foi Anos 60. Razão para a escolha, não há uma específica – apenas o gosto por comemorar com temas inéditos os aniversários dos familiares, o que não é tarefa tão simples, pois motivada pela paixão de Dudu por festas, a família é muito festeira.

“Ele adora festas, ama estar no meio do povão, estar em público. Já fizemos muitos temas, desde o ogro Shrek, do Homem Aranha, festa à fantasia e até uma temática do Palmeiras, que ele é apaixonado”, disse Márcia. “É tudo do Palmeiras, até o DJ (de sua festa) ‘é Palmeiras’”, disse ele em alto e bom som, enquanto sua mãe contava para a repórter sobre os seus gostos.

‘Criança tranquila’
Nas palavras de Márcia, Dudu é uma “criança” tranquila e amorosa que só pensa em sorrir. “Ele é um menino muito amoroso que só quer se divertir, curtir, dançar e estar no meio de gente (sic). Não é como outras crianças que ficam pedindo para comprar as coisas. Ao contrário, ele não nos pede absolutamente nada. Um exemplo é que no aniversário ele nem dava bola para os presentes, não está nem aí para coisas materiais”, descreve ela.

Márcia afirma que o nível de entendimento do jovem se assemelha ao de uma criança. Enquanto ela contava sobre a rotina de Dudu, ele, que havia acabado de chegar da Apae, a interrompeu: “Tem bilhete”, mostrando que sabe muito bem dar os recados das professoras.

Tratamento
A família superou as aflições iniciais que envolveram os primeiros meses de internação e aprendeu a lidar com as adversidades que envolvem os cerca de 40 procedimentos cirúrgicos feitos e os tratamentos contínuos – com fisioterapeutas, fonoaudiólogos, psicólogos, terapeutas ocupacionais e nutricionistas – de Dudu após a chacina.

Hoje, os tios que se tornaram pais se dedicam a oferecer as melhores condições de vida possíveis para o rapaz, a quem o largo sorriso constante não denuncia o terror vivenciado 14 anos atrás, em 26 de março de 2002.

Na época do crime, Dudu, então com apenas 7 anos, sobreviveu à tragédia que ficou conhecida como a Chacina de Batatais. O garoto foi agredido na cabeça com golpes de uma barra de ferro, teve a caixa craniana afundada e rompida e chegou a perder massa encefálica.

As sequelas físicas em decorrência das agressões sofridas são bem visíveis. Dudu perdeu totalmente o olho e várias cirurgias apenas amenizaram o um profundo afundamento no crânio do mesmo lado. Ele apresenta deficiências motoras e intelectuais que o impediram, por exemplo, de ser alfabetizado.

Mas não o impediram de ser guerreiro e lutar pela superação. Márcia afirma que Dudu nunca esteve tão bem e se orgulha do desenvolvimento dele. “Ele entende muito bem o que a gente diz. Eu o ensino e ele até me ajuda em casa. Não deixa roupas jogadas, gosta de dobrar e guardar tudo nas gavetas. Adora organizar os CDs e DVDs de músicas que ele tem”, disse ela, esclarecendo, no entanto, que ele não tem nenhum conhecimento ou qualquer memória do que se passou com ele.

A rotina do jovem inclui o acompanhamento diário na Apae de Batatais, onde ele frequenta uma série de atividades socioeducativas.

Gostos
A mãe conta ainda que Dudu é bom de garfo, gosta de comidas simples – como arroz, carne com batatas, leite e suco – e, por opção dele mesmo, passa longe de refrigerantes, bolachas e outras “bobagens de criança”, como define Márcia.

“Ele não nos pede nada diferente. Meu sonho, aliás, é que ele peça algo para que eu tenha o gosto de fazer para ele. É uma criança que não me dá trabalho algum. A única coisa que ele demonstra querer é sair, passear.”

Mas isso, a família também adora, então, é plausível afirmar: apesar de tudo, a felicidade bate-ponto por ali.

Fonte: Comércio da Franca

COMPARTILHAR