Qualquer domingo em Batatais

Não esperava que tudo fosse acontecer tão rápido. Eu mal tinha mamado e da minha mãe me levaram.

Um homem, um menino e um pedaço de pau me cutucaram. Eu não respondi, afinal, não queria sair dali. Me cutucaram com mais força, parece que não entendiam que ali era meu lugar.

Chutes, tapas, xingamentos e tantas outras coisas que eu só podia chorar e gritar pela minha mãe.

Me trancaram em algum lugar escuro e frio. Pude sentir o cheiro de outros. Acho que ninguém ali entendia, eu não entendia o porquê estava ali. Tentamos fugir, lutamos, mas foi em vão.

O sol desapontava e o mesmo homem apareceu, nos obrigando a ir a outro lugar. Ali esperamos por horas, sem água e sem comida. Vez ou outra só conseguia ver algumas crianças no colo de seus pais que tentavam passar a mão em nós, e cada vez que recusávamos, apanhávamos.

Era injusto, onde estavam nossas mães? Por que não podíamos ficar junto delas?

Foi aí que a vi. Era minha mãe! Ela passava entre nós em meio a chutes e tapas, eu pude ver seus olhos me procurando, como se desejasse que eu tivesse conseguido sair dali.

Eu gritei, urrei, mas ninguém se importou.

Minha mãezinha, um grito de socorro, mas também em vão.

“Quem dá mais?” – eu ouvi.

Tinha muita gente ali, muita comida, bebida e o que mais me espantava era que pareciam se divertir. Mas como? Minha mãe estava longe de mim, sofrendo e apanhando na frente de todos.

Estiquei bem o pescoço e pude ver uma grande senhora, com a coxa de frango na mão, dobrar uma oferta.

“Seis Mil” – Será que a mãe dela valeria o mesmo?

Em meio a papeis e tumulto, foi à última vez que a vi.

Era fim de tarde, eu já tinha me conformado ao meu destino.
Não resisti. Fiz exatamente o que mandaram.

“Dois Mil pra aquele senhor de chapéu e bigode” – era o meu arremate.
A filha dele ia se casar.

Fechei meus olhos e ainda pude imaginar minha mãezinha e a grama nos meus pés.

Talvez esse mundo não seja para nós.

Do arremate para o abate, carne de carneiro eu sou.

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